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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Cantina D'Angelo, italiano das antigas


se no Moraes eles te mimam com o copinho de chocolate e licor, aqui temos limoncello caseiro; mimo ao quadrado!

Na semana passada escrevi sobre a minha decepção com uma antiga cantina, que frequentei durante toda a minha vida, e hoje se transformou em um lugar intragável, em todos os aspectos. Isso me fez lembrar do livro Guia da Culinária Ogra, no qual André Barcinski comenta que escrever o capítulo em que indica bons restaurantes italianos foi a mais difícil, porque apesar da grande oferta, principalmente para quem mora na Bela Vista ou no Bixiga, a qualidade da comida foi se perdendo com o tempo, e hoje a regra é algo gordurento e pesado, muito longe da ideia de comida de avó, que a inocente aqui sempre carrega quando entra em uma dessas casas.

De fato, está difícil, principalmente para quem não acha normal gastar cem reais por cabeça apenas por querer comer um prato de massa e uma taça de vinho. Sei de toda a problemática que os donos de restaurante tem, com uma tributação infinita e exigências administrativas quase impraticáveis, mas se existem lugares como o Moraes e a Cantina D'Angelo, é porque isso é possível.

E foi assim, em mais um almoço com meu pai,  que conheci esse restaurante tão agradável, repleto de quadros e garçons das antigas, um lugar no qual você entra e se sente em casa, é recepcionado pelo dono, come comida de verdade, a um preço honesto, toma uma taça de vinho e sai satisfeito. Se no Moraes eles te mimam com o copinho de chocolate e licor, aqui temos limoncello caseiro; mimo ao quadrado! 

Ah, e para os que gostam de colocar a mão na massa, o dono do restaurante não é de negar receita, muito pelo contrário, tem muito prazer em explicar o passo a passo. Acho que sim, ainda existe amor em SP...
Rua Humaitá, 258

 

sábado, 1 de junho de 2013

Pizzaria Moraes, um porto seguro


Muito tem se discutido sobre as cifras que se gasta para comer fora de casa. Confesso que este é um assunto muito problemático para mim, que não como fora por necessidade, mas para descansar as patas, a cabeça e ter momentos de prazer. A decoração da casa, a atenção dos garçons, a forma cuidadosa como a comida é servida e, principalmente, o seu sabor, são os pontos que realmente importam. Prefiro me programar e ir uma vez a um lugar bom do que ter duas frustrações em locais meia boca. Tirando os dias de terror, não como comida mais ou menos em casa, então porque aceitaria pagar por isso?

E todo esse papo por conta de boas memórias, que no meu caso sempre tem algo a ver com comida. Quando era pequena, sempre almoçava com meus pais no Piero; lembro-me de não ficar chateada por ter de esperar pela nossa mesa, porque sempre ganhava torradinha de alho de um dos meus amigos garçons, e ficava inventando história fantásticas sentada na escadaria que dava para o segundo andar. A minha irmã não saia de lá sem visitar a cozinha, e ai de nós se não pedíssemos o bendito "macarrão com molho branco", do qual a ratinha só comia uns dois fiozinhos. Profiterole com calda de chocolate e café com uma lasquinha de casca de limão, que em questão de segundos já estava espetada em um palito, correndo pelo salão como um guarda-chuva perfumado. Nunca vou me esquecer daqueles momentos, mas tenho de aceitar que eles se foram e parar de achar que um dia levarei meus filhos lá. Das últimas vezes que resolvemos matar as saudades, nos decepcionamos profundamente. Fora o fato da casa ter mudado de imóvel e agora parecer com um restaurante moderno, a qualidade dos ingredientes caiu absurdamente e o cuidado na prepração não é mais o mesmo. Fico chateada por um garçom que trabalha lá há uns trinta anos; imagino o que não deve ter sido para ele... A torradinha de alho parece uma esponja de óleo; as lulas à dorê vieram borrachudas, insossas e acabaram ficando no prato; o molho de tomate estava ralo, claro e deprimente; só uma massa verde com recheio de ricota, nozes e passas se salvou. O espírito não é mais o mesmo; o propósito é mais parecer do que ser, e eu odeio isso. Basta, Piero. Basta.


Felizmente, alguns lugares resistem ao tempo, a mudanças nos arredores e à troca de proprietários. Quando minha mãe era pequena, seu tio tinha um consultório dentário na Av. Brigadeiro Luiz Antônio, que ficava e em frente a um cinema e ao lado de uma pizzaria muito frequentada por cantores e artistas. Antes de ir a uma sessão, ela e os tios passavam no vizinho para pegar uma redonta e comer durante a exibição. Adoro imaginar a cena do disco de pizza dentro da sala de cinema, o perfume, o queijo escorrendo, a bagunça e ela mordendo a fatia com aquela boca cheia de vontade e zero de vergonha, como só uma criança é capaz de fazer. Hoje minha mãe tem 55 anos, e essa pizzaria não só ainda existe como é a minha predileta! Massa boa, molho de tomate fresco, cobertura na medida e a margherita mais matadora do mundo, com um toque de alho frito. Nos últimos anos foram feitas melhorias no imóvel; agora possuem um serviço de estacionamento e aumentaram consideravelmente a carta de vinhos, mas o serviço e o atendimento continuam impecáveis. Frente a tantas frustrações que temos tido gastando fortunas para muitas vezes comer comida ruim, temos ido cada vez mais ao Moraes, porque lá a comida é sempre maravilhosa, você se sente em casa, gasta uma quantia justa e, de quebra, ainda toma um licorzinho no copo de chocolate; não é um mimo?!?
Av. Brigadeiro Luís Antônio, 1438, Bela Vista-SP